Uma só vez, por um só instante, queria dizer que não é como se fosse paixão, amor, tesão, amizade. É só esperança. Como querer que alguma coisa dê minimamente certo, pelo menos uma vez; que olhares sejam reais e eu não esteja apenas iludindo a mim mesma. Não. Eu queria é colocar todo o egoísmo do mundo numa pessoa e me afogar em egocentrismo. Queria me sentir perfeita aos olhos de alguém; queria ver alguém enlouquecido por horas, por não me tirar da cabeça. Queria amor, paixão, sexo, desejo, uma noite. Queria ter recaídas enquanto me afogo em álcool numa noite sem dono. Queria um ‘amor pra vida inteira’ que durasse por uma semana. Queria lembranças que me trouxessem tormento e fizessem a pele queimar como se o toque há anos luz de distância estivesse sobre mim agora. Queria me esquecer do mundo por uma semana, só centrada em vidas alheias por sobre a minha. Queria realidade, fantasia, surrealidade e paranóia no meu cotidiano. Queria escapar pela porta na ponta dos pés, com camisa social por cima da calcinha. Queria amor de uma noite e sentimentos superficiais. Queria sorrisos de uma felicidade não-feliz me tomando os lábios. Queria beijo roubado embaixo da chuva. Queria carícia embaixo da escada. Queria amor de verão embaixo do lençol. Queria rubor tingindo-me as faces enquanto, sozinha, olho para o passado. Queria alguém sonhando de olhos abertos comigo, me sentindo a distância. Queria fogo, gelo, choque, calor, suor, gritos, êxtase, erros. Queria camas quebradas e lençóis rasgados. Queria roupas jogadas ao pé da cama, no poste, na sala, no abajur. Queria congelar na neve, apenas com as mãos aquecidas pelas tuas. Queria esperança, queria existência.
Uma só vez, por um só instante.